Para a SP-Arte 2026 reunimos a força e maturidade de três artistas: Belony Ferreira, Nara Guichon e Bea Balen Susin. O projeto propõe um diálogo entre práticas artísticas que emergem de relações profundas com a matéria, a memória e o meio. Apesar de distintas em linguagem e procedimento, as três artistas, nascidas no Rio Grande do Sul, compartilham a investigação de experiências e contextos sociais e ambientais onde arte, corpo e natureza se entrelaçam como campo de experimentação e expressão.
No trabalho de Belony Ferreira (Santo Antônio da Patrulha, 1935), a terra deixa de ser apenas matéria para tornar-se linguagem. Ex-agricultora, nascida e criada em meio ao cultivo de cana-de-açúcar, encontrou as artes visuais na maturidade, colocando sua antiga companheira — a terra — no centro de sua prática. Utilizando argilas e pigmentos naturais coletados diretamente do solo, a artista cria obras em que cor, textura e forma carregam marcas do território e da história. Sua prática articula arte e política ao evocar a terra como força poética e espaço de ocupação territorial, estabelecendo um diálogo sensível com questões de memória, engajamento social e meio ambiente.
Clique aqui para acessar o preview da exposição Alma Terra, primeira mostra individual de Belony Ferreira em São Paulo na galeria Carmo Johnson ProjectsNara Guichon (Santa Maria, 1955) desenvolve uma produção que atravessa arte, ativismo ambiental e práticas têxteis. Sua trajetória nasce do domínio de técnicas manuais — como tricô, bordado e tear — e se desdobra em uma investigação profundamente conectada ao meio ambiente. Desde o final dos anos 1990, a artista passou a trabalhar com redes de pesca descartadas, conhecidas como redes-fantasma, recolhidas do mar e transformadas em esculturas e instalações têxteis. Ao ressignificar esse material, originalmente associado à destruição da vida marinha, Guichon cria obras que unem rigor formal e consciência ecológica, convertendo resíduos em imagens de regeneração e cuidado.
Na pintura de Bea Balen Susin (Caxias do Sul. 1946), a paisagem se revela como experiência sensorial. Suas obras nascem da convivência direta com a Mata Atlântica e buscam traduzir não apenas sua visualidade, mas também suas atmosferas — os sons, a densidade e os aromas da floresta. As pinturas funcionam como portais em escala humana, nos quais o corpo da artista e a pincelada se entrelaçam, chegando a se fundir em uma única presença. Em um constante diálogo entre real e ficção, Susin procura capturar a sensação de pertencimento e aquilo que chama de “alma das coisas”, revelando o ciclo vital que pulsa na floresta.