Athena

Renata Leoa - 
Onde brilha nossa luz

15 Setembro - 24 Outubro 2026



ATHENA | SALA CUBO

RIO DE JANEIRO

“A história da Zona Oeste começa, assim, por Guaratiba.”
André Luiz Mansur

Em “setenta quilômetros do mar”, poema de Bruna Mitrano, a poeta escreve que “só esquece o mar / quem mora perto do mar / eu não esqueço / que moro onde não escolhi / que moro onde posso morar e / às vezes é madrugada e faz silêncio.” A artista Renata Leoa, por sua vez, recorre à pintura para propor algo semelhante. Em sua obra, a Zona Oeste do Rio de Janeiro apresenta-se, também, por meio do silêncio - recurso pouco adotado em narrativas e representações usuais sobre essa região.

Ao evocar o silêncio para apresentar paisagens ligadas ao imaginário coletivo de quem vive em bairros como Guaratiba, Santa Cruz, Campo Grande, Senador Camará, Bangu, Vila Militar e Jacarepaguá, a artista desloca o que antes parecia fixo e inerente à geografia suburbana e periférica, desdizendo narrativas reducionistas. Não se trata, portanto, de uma interpretação bucólica da natureza, mas de uma aposta em reorientar o repertório iconográfico da própria Zona Oeste sem recorrer a imagens midiatizadas diariamente.

As manchas de cores e pinceladas mais soltas situam a obra entre o figurativo e o abstrato, como quem atravessa a cidade e a percebe da janela do transporte público. Esse gesto contextualiza um processo artístico que tem o deslocamento como princípio e o reconhece como referência não só plástica, mas de uma intelectualidade formada diretamente por essa paisagem. Assim, sua prática artística aposta na dissolução de supostas fronteiras entre natureza e civilização, estabelecendo uma pintura mediada por relações de participação da presença humana sobre o território.

Em suas composições, figuram desde as raízes do mangue guaratibano - onde no século XVI, Tamoios, portugueses e franceses disputavam terras - até as serras do Mendanha e do Bangu, que tiveram seus mananciais controlados pela Companhia Progresso, em 1889, para abastecer a fábrica de tecidos da região… Trata-se de um estudo interessado no cruzamento entre uma Zona Oeste contemporânea, moderna e pré-colonial. O resultado formal e pictórico evidencia uma paisagem que não recusa a complexidade que é existir sob disputas simbólicas e territoriais.

Seu trabalho refuta um percurso historiográfico em que nomes como Debret, Rugendas e Taunay, assim como outros naturalistas, botânicos, cientistas e tantos curiosos projetaram as visualidades de um Brasil sob as lentes de um primitivismo compulsório. No âmbito da crítica, a obra se atualiza junto das ferramentas que ainda tornam exóticas e pitorescas as imagens dessa Zona Oeste. Por não se tratar de um retorno às pinturas generalistas, mas de um posicionamento para discutir, entre outras coisas, autonomia e pertencimento, sua crítica avança sobre a própria História da Arte como instrumento de governo de imagens que, mesmo hoje, carecem de espaços para veicular visualidades mais dignas e de interesse coletivo tanto quanto aquelas que abundam em cartões-postais.

Diferentemente dos fragmentos arquitetônicos presentes em sua produção anterior, aqui, Renata Leoa destaca a importância de reconhecer a Zona Oeste como ente vivo. As raízes do mangue, a árvore atingida por um raio, rios que nomearam bairros, carnaúba, agave, tamboril e taquaral… tudo aqui faz parte de uma relação anterior às vilas operárias, fazendas e engenhos. Dessa forma, como já era de se esperar, sua pintura não se contenta com a contemplação. Onde brilha a nossa luz é uma afirmação, mas, antes, um convite para reaprender a história dessa terra. Dessa vez, do jeito certo.

Rafael Amorim
Curador, artista e poeta